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Devilstein

 Chamavam-no de financista, filantropo, homem bem relacionado. Mas o nome que ecoou depois foi outro: Jeffrey Epstein — o anfitrião de uma corte peculiar onde milionários, acadêmicos e celebridades circulavam como se estivessem num congresso sobre “o futuro da humanidade”. O futuro, ao que parece, tinha ilha privada.

Durante anos, Devilstein construiu a imagem do homem brilhante que “conectava pessoas importantes”. Conectava mesmo. Em jatinhos particulares, em mansões discretas, em agendas que misturavam ciência, política e algo bem menos nobre. Em 2008, um acordo judicial generoso demais lhe deu uma temporada curta atrás das grades — quase um retiro espiritual com horário reduzido.

Mas o diabo mora nos detalhes, e os detalhes voltaram em 2019. Nova prisão, novas acusações de tráfico sexual de menores, e uma lista de contatos que faria qualquer assessor de imprensa suar frio. A narrativa prometia capítulos explosivos. Só que, antes do clímax, veio o anticlímax: encontrado morto na cela. Suicídio, disseram oficialmente. As câmeras falharam, os guardas dormiram, e a imaginação pública acordou.

Devilstein virou símbolo. Não apenas de um crime hediondo, mas de um sistema onde poder, dinheiro e silêncio dançam valsa. No fim, o “visionário” deixou uma pergunta incômoda: quantos demônios usam terno e frequentam coquetéis filantrópicos?



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